quinta-feira, maio 18, 2006

Fui forçado a ir hoje às compras. Já andava a viver na míngua há uns dias. Frigorífico a zero é sempre mau sinal. Toca a ir ao supermercado mais próximo, a 12 quarteirões. Havia um outro que fechou (conhecem algum supermercado em Portugal que tenha fechado?) mais perto.

As latas de conserva(s) portuguesas eram as mais caras. Havia uma dos Açores toda ela etiquetada em italiano. Vá-se lá saber por quê...

Havia um produto qualquer derivado do tomate da quinta do Francis Ford Coppola. A embalagem não lembrava a ninguém. Tinha a cara de uma pequena enfezada entre o preto e branco e o tecnicolor, que para os mais devotos (ou não) lembrava qualquer um dos pastorinhos de Fátima... 

No regresso, umm vagabundo já emborrachado, sustentava-se na parede de um pub irlandês, com música ao vivo, curtindo os acordes e cantarolando mais afinado que o desgraçado do artista!

Ainda não perdi nada hoje... Nem achei!

Hoje os residentes do último ano, que preparam furiosamente o exame final da especialidade estiveram a tarde inteira a fazer revisões de osteoarticular. Com quem? Apenas com o radiologista mais famoso nesta área, Donald de Reznick que veio propositadamente de São Diego para lhes apresentar cem casos diferentes e discutir diagnósticos diferenciais.

Aprender é sempre difícil, mas algumas vezes mais difícil que outras...

Por outro lado, no final deu uma grand lecture em que esteve presente muito gente da radiologia, inclusivamente, o chairman da radiologia, que passou o tempo todo a dormir e a cabecear. Vê-se que é um aprendiz nestas coisas!!!

quarta-feira, maio 17, 2006

O lixo aqui é recolhido uma vez por semana. Uma forma de poupar dinheiro, certamente. E as ruas estão certamente mais limpas que as calçadas graníticas do nossa cidade.

Todas as quintas feiras à noite, toda a gente coloca o seu balde do lixo igual, padronizado, com o número do correio pintado, no passeio. E assim, na sexta-feira de manhã são recolhidos os despojos de uma semana. Toda a gente menos o portuga... Que se esquece e coloca o caixote apenas sexta-feira de manhã quando sai para o hospital. E que por isso mesmo ainda tem o mesmo lixo no fundo do caixote, há 3 semanas...

terça-feira, maio 16, 2006

Apareceu o telemóvel! Agora não tenho cartão pois mandei cancelá-lo... Socorro! 

Encontro "imediato" na noite de Frisco. Estão a imaginar-me a percorrer as ruas desta cidade, por volta da meia-noite, depois do concerto da Maria Rita, e um jovem faz-me uma festa, "Ei RUUEEEII". Quem era? O tipo que me tinha vendido a bicicleta! Tinha estado comigo 30 segundos, no lado oposto da cidade, uns dias antes! Tivessem elas a mesma memória...

segunda-feira, maio 15, 2006

Não sei do meu telemóvel. Deve ter ficado nalgum dos cafés pelos quais vagueei hoje. O que só tem uma vantagem. Vou ter que ir lá amanhã. Outra vez... 

E apresenta outra vantagem. Desta vez estava sozinho! E portanto, escusam de arranjar desculpas mais esotéricas...

Adenda: há quem já tenha visto um mendigo de laptop. Qualquer dia, um deles tem o Ferrari, estacionado à porta.

É o melhor programa de música da rádio portuguesa. Na minha perspectiva, é claro. Mas também só consigo escrever por esse prisma!
Chama-se Vidro Azul. Tem a autoria de Ricardo Mariano. E passa na Rádio Universidade de Coimbra. Vulgo RUC. Está disponível em versão podcast, para quem tenha o iTunes.

Esteve um dia espectacular. Com sol, sem vento. Trinta graus. Convidando à sornice e ao descanso num qualquer café, daqueles com um pátio interior, com vegetação e uma cascata. Ouvindo conversas em diferentes línguas. Pessoas lendo romances em diferentes idiomas. A estudar. A ouvir música. A apanhar sol. A namoriscar. A celebrar o dia da mãe. A fumar um cigarro ao ar livre. A observar os outros. Tudo de uma forma lenta, sincopada, harmoniosa, sem aparentes stresses ou preocupações. 

Como se toda a gente estivesse de férias numa esplanada de um resort soalheiro, muitas vezes a recuperar algum tempo perdido, lendo os livros em atraso, repondo conversas esquecidas, descansando apenas...

A vantagem da bicicleta é que posso comer as sobremesas que quero sem ficar com problemas de consciência... É uma aberração disparatada. Mas é assim mesmo.

domingo, maio 14, 2006

Concerto da Maria Rita. Muito, muito bom. O que mais me impressionou, e às pessoas com quem fui, entre os quais brasileiros, estonianos, portugueses e irlandeses, foi a presença dela em palco e sobretudo a sensualidade do bailado do corpo, dos movimentos das mãos, das brincadeiras que fazia com o público. Valeu...

Pergunta retórica: Quem é a Grazzie?

sábado, maio 13, 2006

Um pedinte com telemóvel. Outro com cartaz com endereço na Internet. Vê-se que estes americanos já tiveram o "Choque Tecnológico"...

Pode-se dizer que ganhei a lotaria na última quinta-feira. Deixei o computador na esplanada de um café, na rua mais movimentada das redondezas. Esquecido. E eram horas de fechar. Fui para Canvas, outro café que já vos falei. Estava com a Rita, uma portuguesa, estudante de Doutoramento que conheci nesse dia. Passado um tempo toca o telefone dela. Telefonavam do café anterior. Tinham visto o número dela no Skype e toca a avisar que tinha esquecido o computador por lá... Imaginem

Ainda perguntei o que podia fazer para agradecer. A better tip next time...

No regresso do concerto, já passava das 23, vi um grupo de mais de 30 pessoas, de todas as idades, que serpenteavam pelos passeios e asfalto de uma das mais movimentadas ruas de Frisco. Todos equipados! Com capacetes e patins em linha! Um deles, transportava como que um carrinho de bebé. Com aparelhagem e colunas enormes que debitavam os decibéis a condizer. Pararam no semáforo à minha volta. E toca a andar! Está verde...

Sexta-feira. Concerto dos The Finches. Ou melhor concerto de outras bandas. Mas os primeiros, e melhores, foram os The Finches. Resumem-se a um duo de um rapaz e uma rapariga. Duas guitarras. Ele com ar envergonhado, a olhar sobretudo para o palco, ou para ela. Ela com uma voz de anjo, de uma inocência e jovialidade cativantes, habituada a espectáculos em pubs ou festas particulares, olhava maravilhada para o público, ria, sorria, suspirava. Estava nas nuvens. Ela. E eu também, por que gostei muito do concerto.

quinta-feira, maio 11, 2006

Comprei bicicleta... As colinas que se cuidem!

É comum quando se passeia pelos quarteirões residenciais, ver os moradores, sentados nas escadas ou num qualquer banquito dos alpendres, muitas vezes com os sacos ainda à porta. Com ar mais ou menos infeliz. Geralmente sozinhos. E sôfregos. Fumas o primeiro ou o último dos cigarritos!

Resulta da grande maioria dos imóveis do centro da cidade ser alugada. E dos senhorios imporem como restrição não fumar. 

E toca a vê-los à chuva ou ao vento, à porta de casa, com o cigarrito na boca.

quarta-feira, maio 10, 2006






terça-feira, maio 09, 2006

Hoje decidi estudar. Depois de sair do hospital e de tentar conversar no Skype. Apanhei o autocarro que não queria. Para a rua que queria. Chestnut Street. Procurava o Café Grove, original e antecessor do homónimo na Fillmore. Saí do autocarro e andei durante mais de 60 minutos. Subi colinas. Desci ruelas. Avancei escadas. Cheguei ao beco sem saída. A rua continuava 50 metros abaixo. Contornei obstáculos. Atravessei quarteirões...e cheguei ao embarcadero, isto é à água, ao porto, ao fim. O café que queria estava no sentido errado. Um quarteirão atrás do meu ponto de partida.

Com fome, fui obrigado a mudar de planos. Dirigi-me a sul e depois a oeste. Em direção ao café Prague. Um dos mais bonitos do burgo. Com uma óptima iluminação, a suficiente para se adivinharem as sombras. Boa música. Paredes de tijolo pintado de vermelho de um lado e amarelo do outro. Pinturas, quadros, um mural enorme, espelhos, postais, mapas, de Praga. Boa música. Tudo isto para mim e eu mesmo. Ah... vá lá... estava um casal do outro lado da sala... Que desperdício. Tive direito a prato principal e a sobremesa. Uma refeição de 23 dólares para degustar sozinho... Salve-se um brinde! Brindemos... À Vossa.

Mas este local é de tal forma mágico que quando entrarem 4 americanos para visitar o café e começaram naturalmente a falar inglês, pensei espontaneamente e reagi irritado, só me faltavam agora quatro turistas americanos!!!!... O portuguesito a estranhar os nativos!!

Terminei com a gorjeta menor possível. Com recibo. Dirigi-me a Borders. Adormeci ao fim da primeira página. Dormitei meia hora. Fui para o metro. Estava em manutenção. Vim à superfície. Passavam das 11. Apanhei um autocarro. Apinhado de gente. Com alguns esquizofrénicos. Outros freaks. Outros simplesmente tolos. Ou exibicionistas. De pé.
Dois maricas enroscavam-se. De mãos dadas. O maior deles muito ternurento. O mais pequeno persistentemente a olhar para mim. Disparatado. Muito bem. Saí. Adivinhem quem saiu na mesma paragem?. Dirigi-me para o elevador (é o elevador que desce do hospital para a minha rua). Lá vinham eles de mãos dadas. Entraram comigo naquele cubículo e saíram num piso intermédio, que funciona de parque de estacionamento. Não sem antes, o mais pequeno olhar para trás.

Já tinha idade para ter juízo. Escrevo agora este post. É uma da manhã. Adivinhem quanto estudei...

Obrigado Fátima. Por te lembrares. Pela carta. E pelos CDs. Seguirá um mail dentro de momentos com algumas respostas...

Concerto 6a feira. Maria Rita. Querem vir?

Craigslist é um conjunto de classificados na Internet onde tudo se compra, vende ou troca. Foi assim que arranjei casa. E procuro agora uma bicicleta. Vejam agora este anúncio, para os interessados

WANTED: BICYCLE THIEF
Reply to: sale-158846001@craigslist.org
I am a freelance journalist working on a story about bicycle thieves in San Francisco. I am trying to track down a current or former thief to discuss the city's underground bike economy. Please send me an e-mail. I can keep you anonymous if you can prove you are a thief.

 
Um dos médicos canadianos amigos do Zé Miguel comprou um carro há 6 meses. Motor de 3 litros. 250 cavalos. Uma brutalidade. Planeia comprar agora outro. Apenas por gozo. Um corvette. Atomic orange. O único a ser vendido no Canadá ocidental. Já tem inclusivamente um casaco e um relógio para condizerem com o carro. Ambos brancos!

Resumindo, e passo a citar, não me interesso se o carro anda muito ou pouco. Só quero que as pessoas vejam, reparem em mim, quando entro e quando saio do carro.

segunda-feira, maio 08, 2006

Nunca estive numa cidade (Vancouver) em que o culto do corpo e o cuidado na imagem fossem tão evidentes. As mulheres sem uma grama a mais, muitas delas esculturais e produzidas. Os homens igualmente trabalhados, com muitas horas de ginásio, musculação e de espelho. E basta ver as dezenas de revistas diferentes sobre fitness, musculação, dietas e como manter ou atingir a elegância...

Estão chegados ao fim os tempos de Vancouver. Uma cidade bonita, easy living, com óptimos parques, jardins, bosques, piscinas ao ar livre, arquitectura maioritariamente de vidro e emoldurada permanentemente pelas montanhas e picos nevados à distância.

Tal como San-Fran (como os locais daqui chamam a São Francisco) temos novamente as ruas cheias de vida, pessoas a passear no parque, a ler livros, a passear os filhos, imensos miúdos, a ouvir música, a conversar, a namorar, a namoriscar, a ressacar, o que quer que seja.

Costumava dizer que os países da terceiro mundo e particularmente os do hemisférios sul são muito mais apelativos, pela diversidade das cores, dos cheiros, dos sons, pelo ritmo alucinante de tudo. Como paradigma dessa agitação sugeria os souks de Marrocos, deles o mais bonito o de Marrakech, ou o mercado de Otavalo no Equador.

Embora de uma forma mais calma, racional, regrada, Vancouver e São Francisco conseguem ser igualmente excitantes. Com a sua quantidade impressionante de culturas, de origens, aparentemente bem misturadas e integradas, só pode ser assim mesmo, não?

Não sei porque sinto tanta diferença para o Porto.
San Francisco e Vancouver são muitas vezes oposto do que temos na nossa cidade.
Uma cidade vazia, entregue aos semáforos, carros, arrumadores, pombos e pouco mais. Ruas com graffitis, com algum lixo, deserta, com umas quantas pastelarias, confeitarias, cafés e lanchonetes. Todos eles iguais com as mesmas cadeiras mixurucas, os mesmos balcões de vidro, com as mesmas vitrinas, repletas dos mesmos frisumos, coca-colas e afins, com as mesmas quantas garrafas empoeiradas como bibelô, e para consumo exclusivo do estabelecimento... Uma cidade cujo epicentro é a VCI e os shoppings de Gaia e Matosinhos.

Andamos todos mesmo tristonhos, dentro do carro, a ouvir o Pessoal e Transmissível ou a Bola Branca, a fazer contas à crise, à vida, ao défice, à inflação, ao desemprego, ao leasing do carro, à gasolina, presos a uma qualquer hipoteca de um qualquer apartamento de um qualquer subúrbio, com medo dos juros, do condomínio, do IRS, do desemprego ou das listas de espera.

A cidade está parada, estagnada, não existe. Que raio de cidade existe sem pessoas?

Por aqui vemos as pessoas a correr, andar de bicicleta, jogging, patins em linha, natação, o que quer que seja. Mas passeiam. Estão nas ruas. Enchem os cafés. Compra-se. Vende-se. Ouve-se barulho. Vê-se gente. Ouvem-se gargalhadas ou imprecações. Sente-se vida. Em comunidade, e não apenas atrás das portas de um qualquer apartamento, num qualquer andar, num qualquer subúrbio, filtradas por uma qualquer telenovela ou telejornal.

VOLTEI! Já tinha saudades de casa! De San-Fran, Frisco ou Cisco para os amigos. E tinha saudades de escrever. De bloggar. De vocês.
Volto a dar o pontapé de saída. Estão todos convidados! Aguardam-se cenas dos próximos capítulos. Mas antes tenho que desempacotar a mala.

terça-feira, maio 02, 2006

No Canadá também há mendigos.

Numa casa de banho de um dos restaurantes em que comemos, estavam afixadas as capas dos jornais do dia, por cima do urinóis. Noutra existiam sofás de couro e lareira.

Junto ao centro de congressos decorre uma filmagem, com o senhor ex-007, Pierce Brosman. Claro que enquanto filmavam uma entrevista, pediram encarecidamente para que os portugueses debitassem menos decibeis enquanto comentavam qualquer disparate.